segunda-feira, 18 de março de 2013

Você sabia? Timo, a chave da energia vital

Timo, a chave da energia vital



No meio do peito, bem atrás do osso onde a gente toca quando diz Eu, fica uma pequena glândula chamada timo. Seu nome em grego, thymos, significa energia vital. Precisa dizer mais? Precisa, porque o timo continua sendo um ilustre desconhecido.
Ele cresce quando estamos contentes, encolhe pela metade quando nos estressamos e mais ainda se adoecemos. Esta característica iludiu durante muito tempo a medicina, que só o conhecia através de autópsias e sempre o encontrava encolhidinho. Supunha-se que atrofiava e parava de trabalhar na adolescência, tanto que durante décadas os médicos americanos bombardeavam timos adultos perfeitamente saudáveis com megadoses de raios-x, achando que seu tamanho “anormal” poderia causar problemas.
Mais tarde a ciência demonstrou que, mesmo encolhendo após a infância, continua totalmente ativo: é um dos pilares do sistema imunológico, junto com as glândulas adrenais e a espinha dorsal, e está diretamente ligado aos sentidos, à consciência e à linguagem. Como uma central telefônica por onde passam todas as ligações, faz conexões para fora e para dentro. Se somos invadidos por micróbios ou toxinas, reage produzindo células de defesa na mesma hora.
Mas também é muito sensível a imagens, cores, luz, cheiros, sabores, gestos, toques, sons, palavras, pensamentos. Amor e ódio o afetam profundamente. Ideias negativas têm mais poder sobre ele do que vírus ou bactérias - já que não existem em forma concreta, o timo fica tentando reagir e enfraquece, abrindo brechas para sintomas de baixa imunidade como herpes, por exemplo. Em compensação, ideias positivas conseguem dele uma ativação geral de todos os poderes, lembrando a fé que remove montanhas.
Um teste simples pode demonstrar essa conexão. Feche os dedos polegar e indicador na posição de OK, aperte com força e peça para alguém tentar abri-los enquanto você pensa “estou feliz”. Depois repita pensando “estou infeliz”. A maioria das pessoas conserva a força nos dedos com a ideia feliz e enfraquece quando se pensa infeliz. (Substitua os pensamentos por uma bela sopa de legumes ou um lindo sorvete de chocolate para ver o que acontece...)
Este mesmo teste serve para lidar com situações bem mais complexas. Por exemplo, o médico precisa de um diagnóstico diferencial - seu paciente tem sintomas no fígado que tanto podem significar câncer quanto abcessos causados por amebas. Usando lâminas com amostras, ou mesmo representações gráficas de uma e outra hipótese, testa a força muscular do paciente quando em contato com elas e chega ao resultado. As reações são consideradas respostas do timo e o método, que tem sido demonstrado em congressos científicos ao redor do mundo, já é ensinado até na Universidade de São Paulo (USP), a médicos acupunturistas.
O detalhe curioso é que o timo fica encostadinho no coração, que acaba ganhando todos os créditos em relação a sentimentos, emoções, decisões, jeito de falar, jeito de escutar, estado de espírito... “Fiquei de coração apertadinho”, por exemplo, revela uma situação real do timo, que só por reflexo envolve o coração. O próprio chacra cardíaco, fonte energética de união e compaixão, tem muito mais a ver com o timo do que com o coração – e é nesse chacra que, segundo os ensinamentos budistas, se dá a passagem do estágio animal para o estágio humano.
“Lindo!”, você pode estar pensando, “mas e daí?” Daí que, se você quiser, pode exercitar o timo para aumentar sua produção de bem-estar e felicidade.
Como? Pela manhã, ao levantar, ou à noite, antes de dormir.
Fique de pé, os joelhos levemente dobrados. A distância entre os pés deve ser a mesma dos ombros. Ponha o peso do corpo sobre os dedos e não sobre o calcanhar, e mantenha toda a musculatura bem relaxada.
Feche qualquer uma das mãos e comece a dar pancadinhas contínuas com os nós dos dedos no centro do peito, marcando o ritmo assim: uma forte e duas fracas. Continue por três a cinco minutos, respirando calmamente enquanto observa a vibração produzida em toda a região torácica.
O exercício estará atraindo sangue e energia para o timo, fazendo-o crescer em vitalidade e beneficiando também pulmões, coração, brônquios e garganta. Ou seja, enchendo o peito de algo que já era seu e só estava esperando um olhar de reconhecimento para se transformar em coragem, calma, nutrição emocional, abraço.
Ótimo. Íntimo. Cheio de estímulo. Bendito timo.

Fonte: Sonia Hirsch em “Meditando na Cozinha”

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ninguém vive sem um pouco de poesia... - Pablo Neruda

Esperemos

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

(Pablo Neruda)

domingo, 10 de março de 2013

Santa Rita é notícia - Jovens cientistas usam robótica e tecnologia para ajudar idosos


Jovens cientistas usam robótica e tecnologia para ajudar idosos

BRASÍLIA (Agência Brasil) -  Jovens cientistas de todo o país estão em Brasília neste fim de semana para apresentar  projetos voltados à melhoria da qualidade de vida de idosos. Depois de meses de estudo em grupo, eles desenvolveram protótipos avançados de tecnologia robótica que pretendem lançar futuramente no mercado.

Os cientistas são crianças e adolescentes com idade entre 9 e 14 anos, que representam colégios públicos e privados de todo o país no Torneio de Robótica First Lego League. Realizado desde 2004, o evento tornou-se referência para os jovens que querem mudar o mundo sem abrir mão do que mais gostam: diversão, tecnologia e interatividade.
Orientados por técnicos e mentores, os adolescentes fazem pesquisa social e tecnológica para desenvolver protótipos que poderiam ter saído de qualquer universidade. Estudantes de um colégio estadual em Santa Rita do Sapucaí (MG) desenvolveram uma dupla de relógios em que a variação de pressão no idoso aciona alarme na unidade que fica com seus filhos ou responsáveis. A localização é enviada por GPS.
“A proposta vai ao encontro da demanda do Brasil por mão de obra qualificada em tecnologia, que está sendo importada. Queremos despertar o jovem para esse mundo”, explica Marcos Wesley, do Instituto Aprender Fazendo. A cada ano, além de torneios que testam a agilidade na operação de robôs, os participantes têm que apresentar projetos voltados para a melhoria da sociedade em que vivem. Neste ano, foi a vez da terceira idade.
No estande de Catalão (GO), estudantes apresentam um relógio diferente para os esquecidos. Os alarmes são programados para avisar sobre remédios e dosagens que devem ser ingeridos. Símbolos substituem os números na opção pensada especialmente para analfabetos. “Pela nossa pesquisa, entendemos que o idoso tem suas limitações, mas quer ser independente”, explica Luiz Dias, técnico da equipe.
O grupo que representa o Rio de Janeiro (RJ) apostou em um mecanismo que lê ondas cerebrais para movimentar objetos. “Pode ser usado para assentos e camas subirem e descerem, ajudando idosos com problema no joelho ou de locomoção”, explicam. Embora todas as ideias pareçam dignas de prêmio, apenas três das 60 equipes disputarão torneios na Europa e nos Estados Unidos.
Envolvido com o projeto há quase dez anos, César Barscevicius, 20 anos, diz que o torneio criou uma nova geração de jovens que vivem pesquisa e tecnologia o ano todo. “O brasileiro se destaca. Por não termos tantos recursos, acabamos usando mais a criatividade”, diz ele, que ganhou campeonato na Europa em 2010.
Todos os estudantes ouvidos disseram que pretendem seguir na área de tecnologia, especialmente pela possibilidade de bons empregos e de “criar coisas novas que não precisam de manual”.

(Fonte: http://www.oreporter.com/  em 09/03/2013)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Santa Rita é notícia - Empreendedores criam polo eletromédico


Empreendedores criam polo eletromédico

O dia 16 de janeiro de 2006 marcou para sempre a vida do jovem administrador Paulo Vlady, hoje com 31 anos. Ele voltava para casa, em Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas, quando um automóvel entrou na contramão e colidiu com sua moto. Sua perna esquerda ficou estraçalhada, como ele mesmo diz. Na verdade, houve fraturas expostas, esmigalhamento de osso e perda óssea. Os médicos chegaram a dizer que a perna teria de ser amputada. Vlady não aceitou essa possibilidade e continuou se submetendo aos tratamentos possíveis e que estavam ao seu alcance.
No total, foram cinco cirurgias e sete meses gastos em hospitais. A princípio, ele só queria saber de se recuperar para poder voltar a trabalhar. Mas as observações das rotinas hospitalares que fazia durante os tratamentos o levaram a pensar na criação de equipamentos para o setor.
“Percebi uma necessidade muito grande de tecnologia na área médica, porque ou eram equipamentos muito complexos, que exigiam soluções muito elaboradas, ou, na outra ponta, havia um pessoal fazendo as coisas de forma artesanal. Eram aparelhos de 1940 que não tinham evoluído”, conta. “A ideia era fazer equipamentos que conseguíssemos propor tecnologias modernas a baixo custo.”
Em 2007, a vontade empreendedora de Vlady resultou na criação, em conjunto com mais dois sócios – um engenheiro e um médico –, da Biotron, que nasceu na incubadora Prointec. No entanto, como os produtos eletromédicos requerem um longo período para chegar ao mercado, a empresa passou, estrategicamente, a produzir inicialmente para o segmento odontológico, até que as demais ferramentas pudessem ser lançadas.
“O segmento odontológico é mais aberto e tão necessitado quanto o médico de tecnologia. Aproveitando toda estrutura e todo know-how que tínhamos, começamos a desenvolver produtos para essa área, como o negatoscópio (um visualizador de radiografias). Tivemos uma aceitação muito boa, e os próprios clientes começaram a sugerir novos produtos.” Os primeiros chegaram ao mercado em 2008, quando os dois primeiros sócios já tinham deixado a empresa. Uma administradora passou a fazer parte da Biotron.
“Até o ano passado, produzíamos exclusivamente para dentistas. Agora, em 2013, já temos outras parcerias, e os equipamentos que desenvolvemos para o segmento médico serão lançados. Conseguimos os registros e vamos começar a colocá-los no mercado”, diz Vlady, que se recuperou do acidente.
Um desses equipamentos mede o estímulo que o cérebro emite para o músculo comprometido e a capacidade com que este sinal está sendo recebido. Ele consegue identificar qual é o nível de debilidade do músculo e, à medida que se faz o tratamento, consegue apurar a evolução da recuperação e fazer uma previsão de em quanto tempo, mantendo o tratamento naquele ritmo, o paciente terá sua capacidade motora restabelecida. É indicado para vítimas de acidentes, pessoas que sofreram um AVC e até para atletas que lutam contra lesões.
Para o empresário, foi decisivo estar no chamado vale dos eletrônicos, a região de Minas onde estão Itajubá e Santa Rita do Sapucaí. A região forma um dos maiores centros tecnológicos do País, congregando conhecimento nas áreas de eletrônica, informática e comunicações, graças a pesquisas consideradas inovadoras e ao processo de incubação de empresas. De acordo com o Sebrae, esse quadro propicia um clima que estimula a criação e o desenvolvimento de micro e pequenos empreendimentos.
Há um caldo de cultura que ajudou não apenas Paulo Vlady a dar o pontapé inicial na Biotron, mas também várias outras pessoas a criar empresas na região, também chamada de Vale do Silício brasileiro. “O fato de estarmos aqui já é uma grande vantagem competitiva. Aqui temos várias empresas que prestam serviços na fase de produção”, diz Vlady. “Há uma empresa que faz a gestão de componentes na placa, outra faz a injeção plástica, outra que faz toda a parte mecânica. A minha responsabilidade como indústria é desenvolver o projeto, montar os protótipos, fazer a unificação das partes, teste e certificação.” Ele até monta alguns produtos, mas aqueles que têm menor volume de escala de produção. “Mas faço a integração de todos.”
Na mesma época da Biotron, que tem uma linha de 25 produtos – como negatoscópio slim e com LED, acionadores elétricos, máquinas de biossegurança, câmara intraorais – e pretende lançar um a cada dois meses neste ano, começaram a surgir outras empresas interessadas no mercado de eletromédicos.
Uma delas é a AutHosp. O sócio, Diovani Gomes Ribeiro, de 30 anos, conta que durante o curso de automação industrial, em Itajubá, queria aproveitar a tecnologia para criar algo de valor para a sociedade. Desse desejo, veio a ideia de criar produtos eletromédicos. Passou, então, a pesquisar sobre o tema, e encontrou um professor, que tinha, segundo Ribeiro, uma ideia para um produto “revolucionário”.
“Trata-se da cadeira que produzimos hoje. Ela é voltada para o tratamento de feridas e queimaduras”, conta. “O professor era um profissional da área, sabia que havia uma demanda muito grande para isso. Ele sabia o que queria, mas não sabia como fazer. Eu sabia como fazer e não sabia qual era demanda. Somamos as duas forças e a companhia nasceu na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de Itajubá (Incit).

O acadêmico acabou deixando a sociedade, mas o projeto de desenvolver a cadeira continuou e já está hoje à venda. Com ela, são 38 produtos fabricados pela AutHosp, como maca elétrica, biombos e armários, entre outros. Em 2012, a AutHosp faturou R$ 1,2 milhão, tem entre seus clientes hospitais públicos e privados, clínicas e unidades de saúde das Forças Armadas. E deve começar, neste ano, a exportar para a América Latina.
A Lifetec, criada em 2008, teve o apoio da incubadora do Inatel. Tem três sócios: a administradora Andreia Malaquias dos Santos, o médico e dentista Fernando Henrique de Faria, e o engenheiro Marcelo Henrique Vieira, do Inatel. Hoje, a empresa é associada à incubadora Prointec e conta com o apoio do Sebrae. “Com este apoio, conseguimos ter capacitação e nos tornamos uma empresa com destaque em inovação”, conta Andreia, lembrando que a Fifetec foi a primeira a fabricar negatoscópio em LED no Brasil e prevê lançar cinco novos produtos neste ano.

Conhecimento e mão de obra qualificada

Não é à toa que as empresas voltadas para o mercado de eletromédicos surgem naquela região do sul de Minas Gerais. “Todo dia nasce empresa aqui no vale dos eletrônicos”, diz Andreia Malaquias dos Santos, da Lifetec.
O “vale dos eletrônicos” é uma região de estímulo ao empreendedorismo, ao unir conhecimento e apoio a empresas nascentes. “Aqui em Santa Rita do Sapucaí, encontramos engenheiros formados pelo Inatel na área de biomédica, temos mão de obra na área de administração, formada pela Faculdade de Administração e Economia (FAE), há a escola técnica de eletrônica, onde se encontra mão de obra especializada”, acrescenta a empresária Andreia.
Paulo Vlady, da Biotron, afirma que, se não fosse a região, seu projeto nunca teria se concretizado. “Aqui, existem muitas empresas, todas com esse viés tecnológico, o que propicia um relacionamento mais fácil, não só pela proximidade logística, mas pela interação, pela troca de informações, conhecimento tecnológico. Aqui todo mundo fala a mesma língua. Não há aquela dificuldade de explicar para o fornecedor que um certo componente precisa de aterramento, que tem de ter aquele cuidado com embalagem. É muito complexo. Aqui é tudo automático, você fala que quer a placa pronta, e o fornecedor já entrega tudo mastigado”, alega Vlady.
Esse clima leva empreendedores e empresas a desenvolver produtos inovadores que possam ter um bom valor agregado. Diovani Gomes Ribeiro, da AutHosp, afirma que sua companhia foi a primeira no mundo a desenvolver a cadeira tecnológica para auxiliar no tratamento de feridos e queimados principalmente na parte inferior do corpo, embora existissem outras semelhantes, mas não automatizadas e para essa finalidade.
Com ela, o paciente, muitas vezes obeso, é colocado numa posição confortável, simplesmente acionando um botão, e que também proporciona ergonomia ao profissional de saúde para que ele venha manusear o paciente.
Ribeiro lembra que o procedimento agiliza o atendimento hospitalar, e o profissional pode fazer até cinco vezes mais atendimentos com menos desgaste. Ela garante que o produto tem um preço atraente.
“Como tem tecnologia, tem um valor agregado um pouco maior. Mas tentamos fazer um equilíbrio entre um bom preço e a qualidade para não ficar muito oneroso”, comenta Ribeiro, sem revelar o valor.
A busca por produtos inovadores, com tecnologia e bom valor agregado é a marca das empresas da região, segundo dizem seus sócios.


Sebrae auxilia empresas do setor

O Sebrae de Minas Gerais criou o Projeto de Desenvolvimento do Setor Eletromédico do Sul de Minas com o objetivo de consolidar a competitividade e estimular a inovação do polo no mercado. A entidade auxilia os empreendedores em processos de gerenciamento e de gestão , na obtenção de certificações e na captação de recursos. De acordo com Rodrigo Pereira, técnico do Sebrae em Santa Rita do Sapucaí, um passo inicial do projeto foi a criação do Grupo das Empresas de Produtos e Serviços para a Saúde (GEPSS).
O apoio da entidade contribui no desenvolvimento do produto, na sua adequação ao mercado e às exigências de certificação feitas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O selo da agência e mais o do Inmetro são pré condição para que os produtos cheguem ao mercado.
O Sebrae também promove a capacitação para que as empresas possam lançar mão de boas práticas de fabricação e dá apoio no processo de acesso ao mercado, como na participação em feiras e exposições.
De acordo com o técnico, as empresas procuram criar equipamentos com o diferencial baseado na inovação e com valor agregado vindo principalmente com a substituição de importações, já que este é um dos objetivos do projeto. Pereira lembra que a construção de um hospital modelo, que entrará em atividade no meio deste ano, vai aumentar a demanda por produtos do segmento.
(Fonte: Cláudio Marques – Estadão em 05/02/2013)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ninguém vive sem um pouco de poesia... - Maria do Rosário Pedreira

Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu, 
eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.
(Maria do Rosário Pedreira)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Persona - Churchill

Winston Leonard Spencer-Churchill (Oxfordshire, 30 de Novembro de 1874 – Londres, 24 de Janeiro de1965) 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ninguém vive sem um pouco de poesia... - Mia Couto

Lições
Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
(Mia Couto)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Ninguém vive sem um pouco de poesia... - Marina Colasanti

Rota de Colisão

De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.
(Marina Colasanti)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Ninguém vive sem um pouco de poesia... - Ferreira Gullar

Ano Novo
Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
… nenhum indício.


Olho o céu:
o abismo vence o olhar.
O mesmo espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre minha cabeça
nada ali indica
que um Ano Novo começa.


E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.


Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).
(Ferreira Gullar)
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