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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Gostei... - Ano Novo

Ano Novo

Começar o ano na quarta-feira deveria ser proibido. Infelizmente, na ausência de leis que proíbam o fluxo regular do calendário gregoriano, o primeiro dia do ano cai, de vez em quando, em intervalos regulares e previsíveis, em uma quarta-feira.
Primeiro dia do ano é tempo que deve ser utilizado para o descanso, ao perdão autoconcedido, e ao enfrentamento das consequências dos excessos, ações e acontecimentos do ultimo dia do ano passado. Olhando dessa perspectiva, começar ou não o ano na quarta-feira não faz realmente muita diferença.
A perda se dá realmente nos dias seguintes, quando a vida quotidiana parece acordar e, a todos, arrastar no turbilhão de agitações que engole as horas de todos os dias, a toda hora. Ano que começa em quarta-feira rouba tempo adicional para reflexão e contemplação.
Parece que começos de ano existem para reflexão, reavaliação de ações, revisão de objetivos e tomada de decisões. Nessa época, a gente tende a contemplar o futuro, o passado, os valores, e os significados. É renascer habitando o mesmo corpo.
O ser humano, apesar de se autoproclamar racional, parece jamais desistir de encontrar perguntas cuja existência de respostas seja talvez impossível ou improvável. É assim que se escrevem páginas sobre a existência ou inexistência de Deus, ou se derramam rios de tinta e muito esforço na busca de conexões humanas perfeitas.
Aos que abraçam a ciência com única explicação, e a tudo tentam abordar racionalmente, de fato, muita coisa parece sem sentido, vazia. A ciência explica como, mas ajuda muito pouco a entender por quê. A existência seria simplesmente um acaso pelo qual cada um de nós passa, sem nada de especial.
Talvez seja verdade. Talvez não exista mesmo sentido. Mas se toda esta racionalidade não estivesse eternamente grávida de dúvidas; ou se aqueles que se autoproclamam completamente racionais desfrutassem da completa pureza de suas convicções, cessariam também a sede por conhecer, por saber, por aspirar, por viver.
Nós, entretanto, continuamos. Investimos energia e tempo na busca de sentido e conexões humanas perfeitas. E somos permanentemente desafiados a perguntar se simplesmente falhamos em encontrar as respostas às questões que nos preocupam, ou se essas respostas simplesmente nunca existiram.
Começo de ano é época de desejar o impossível, ou, no mínimo o improvável. É período para renascimento de esperanças. Feito para abrigar os sonhos das conexões humanas perfeitas, e continuar a busca das respostas que tanto precisamos, mas que tardam em chegar.
Que este ano traga tudo isto.
Feliz ano novo!

(Elton Simões)

domingo, 6 de outubro de 2013

Gostei... - O quintal onde ele jaz

O quintal onde ele jaz
Aquele menino tinha tesouros que valiam mais que ouro. 
Mais que prata.
E do que queijo e requeijão.
Ele tinha um embornal com bolinhas de gude, um pião de madeira e um álbum de figurinhas do Grande Circo Mexicano.
Tinha cadernos da escola, um livro de tabuada e uma caixa de lápis de cor.
Ele tinha um cãozinho que fazia companhia e lhe lambia as mãos.
E tinha uma andorinha fazendo ninho na cumeeira da varanda, um canarinho cantando ao longe e um um girassol que sorria.
Ele tinha um coreto de igreja e uma igreja, com torre e sino.
Tinha um pátio embandeirado e uma fogueira de São João.
Tinha dez padre-nossos e quinze ave-marias.
Tinha um catecismo.
Um terço e um sermão do padre João.
Levava um santinho no bolso da camisa e um anjo da guarda, no coração.


Tinha uma solidão domingueira e uma febre de gripe.
Tinha um rosário de lombrigas e um medo de morrer.
Tinha cachumba, catapora e uma tatuagem no braço, como prova da vacinação.
Tinha um redemunho que levantava a poeira da rua e onde vivia o cramunhão.
Tinha também um oratório, a morada de Deus. 
E tinha Deus.


Aquele menino tinha um terreiro, que era um latifúndio do tamanho do mundo.
E um varal pendurando as roupas que à noite se transformavam em fantasmas e lhe afugentavam o sono, trazendo as pisadeiras.
O menino tinha um vento com voz de Caruso que varria seus telhados.
E uma chuva nervosa fazendo algazarra no milharal.
Ele tinha uma janela pro rio.
Tinha um rio.
Um relâmpago e um trovão.
Tinha um amigo imaginário e um outro, filho da vizinha.


Tinha calções sujos de terra e um exército de formigas.
Um rebanho de boizinhos de melão de São Caetano e um canavial de capim.
Tinha vulcões de formigueiro, pequenos vesúvios que jamais entraram em erupção.
E ossos de galinha enterrados na terra, material de arqueologia vã.
Aquele menino tinha dinossauros fantasiados de lagartixas e calangos que sabiam dizer sim.
E outras criaturas pré-históricas, como o louva-a-Deus que molhava a bunda na água, besouros encouraçados e verdes esperanças.


Aquele menino tinha uma orquestra de cigarras à hora da Ave-Maria.
E tinha Maria, uma irmã.


No quintal daquela casa ele escreveu seus primeiros evangelhos, pensou nano-pecados, cometeu insignificantes heresias.
Foi lá, no  número 149 da Rua Topázio, que ele enterrou a infância, alguns sonhos de algibeira e todas as certezas.
Ele tinha um quintal e o quintal é o lugar onde todo menino jaz
O quintal da casa, meus amigos, é o cemitério da inocência.


Fonte: Texto do jornalista e escritor mineiro Roberto Lima que se define assim: Nasci em Pedra Corrida, Minas Gerais. Nasci em casa, sob a luz de uma lamparina. Meu pai, soldado da polícia militar mineira... minha mãe, dona de casa... Sou o terceiro a nascer de seu ventre... e o do meio, entre os que sobreviveram. Gosto de futebol e de pão com linguiça. Minas Gerais está no meu começo e guardará o meu fim (à sombra de uma mangueira em flor)... Sou um cidadão comum... Pago impostos... Sofro de bronquite alérgica... Cozinho para não enlouquecer... Escrevo crônicas para merecer meu pão... Sou raso em tudo o que faço. Profundo em tudo o que sinto. Não sei o que seria de mim se fosse o contrário disto... Acredito na força do amor e da amizade... Diletante da palavra, sou cria das ruas e de uma solidão povoada de pessoas... Choro em filmes que me emocionam e em livros que me tocam... Posso ser divertido... Posso ser o fim do mundo... Meus olhos falam quase tudo o que minha boca cala. A cor que me encanta é a azul. Sou editor do Jornal Brazilian Voice, em Newark-NJ.
Você pode ler mais crônicas sublimes do escritor no blog Primeira Pessoa.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Gostei... - Cicatrizes

"Roubado" do Blog do Noblat.
Cicatrizes

Abaixo do polegar, um pouco acima do punho, levo uma cicatriz. As circunstâncias que a produziram fizeram com que essa cicatriz formasse um risco negro, fino, quase uma tatuagem a marcar a pele da mão. Claramente visível. Com um procedimento simples, seria possível removê-la. Sempre me recusei. Já se vão décadas que ela me acompanha. Ela faz parte do que sou.
Toda cicatriz conta uma história. Por trás de cada uma delas tem o caminho, a série de eventos que resultaram naquela marca no corpo, na alma ou na consciência. Parte da vida é colecionar cicatrizes. É aceitar a inevitabilidade do sofrimento. É transformar o sofrimento da ferida no aprendizado e na história que a cicatriz marca.
As cicatrizes no corpo, na alma ou na mente são o mapa da trajetória de cada um. Elas são de todos os tipos. Algumas causam orgulhos, outras causam tristeza, outras não se fecham jamais. Mas todas contam historias. Todas marcam eventos. Todas imprimem o tempo.
 O ser humano parece estar sempre condenado a ter a própria alma ferida e a ferir a alma do outro. Ser simultaneamente vítima e causa de sofrimento. Ser, ao mesmo tempo, portador e causa de cicatrizes.
Cicatrizes são marcas que não perdoam. Permanecem lá como testemunhas e memória permanente da trajetória de cada um. Registram erros e acertos; atos de coragem e de covardia; vitorias e derrotas; o certo e o errado. Transformam sofrimento em experiência e aprendizado.
As marcas que a vida deixa na pele, na alma e na mente são parte importante da experiência humana. Talvez sejam elas, as marcas, que nos tornam, a cada um de nós, alguém especial, único.
Por isto não removo minhas cicatrizes. Sem elas, eu não sou.

(Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca . Escreve aqui às segundas-feiras.)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Retrato Falado do Mentiroso

Bem apropriado para o dia de hoje.

Retrato Falado do Mentiroso
Como sabemos que o homem está mentindo?
- O mentiroso é detalhista, responde aquilo que não foi perguntado, está tentando se convencer da história, perde-se em pormenores e curvas desnecessárias.
- O mentiroso fica romântico fora de hora, generoso de repente.
- O mentiroso baixa os olhos de vergonha e fala para os lados.
- O mentiroso somente desmente uma história quando há uma mentira maior para esconder.
- O mentiroso pede desculpa fácil (não se importa mesmo com aquilo que diz).
- O mentiroso ri de nervoso, ri antes da piada.
- O mentiroso é ambicioso: deseja uma mentira maior do que a anterior. Ele tropeça em seu próprio sucesso.
- O mentiroso nunca é evasivo, sempre tem certezas.
- O mentiroso se julga melhor do que os outros. Pensa que sairá impune, que ninguém é capaz de descobrir suas artimanhas.
- O mentiroso inventa tudo (que é um erro, o certo é contar algo falso a partir de algo verdadeiro).
- O mentiroso, tão preocupado consigo, não conversa. É um monólogo.
- O mentiroso sempre está se favorecendo com a trama, ou é a vítima ou é o azarado. Não há mentira que prejudique seu autor.
- O mentiroso acredita que escutar é acreditar e vai falando sem questionar nada.
- O mentiroso põe a culpa pelos atrasos nos amigos. Mas esquece de avisar os amigos.
E a mulher? O que ela faz?
Quando a mulher mente, conta a verdade. Como se fosse uma brincadeira. 
(Fabrício Carpinejar)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Gostei...- O primeiro presente do "No rastro da memória"!!!

O primeiro presente do "No rastro da memória"!!!
   


Hoje  tive  a grata surpresa  de ser presenteada pela amiga  Marisa Domingos Giglio do blog Eu, Marisa com o Selo/Prêmio Dardos.


 Informações sobre o SELO/PRÊMIO  

O Prêmio Dardos foi criado pelo escritor espanhol Alberto Zambade.    
No ano de 2008 concedeu no seu blog Legendas de "EL Pequeño Dardo" o primeiro Prêmio Dardos a quinze blogs selecionados por ele. Ao divulgar o prêmio, Zambade solicitou aos blogs premiados que também indicassem outros blogs ou sites considerados merecedores do prêmio. Assim a Premiação se espalhou pela Internet.

Cada ganhador do selo deve continuar a fazer premiação (se quiser, é claro) aos blogs que por ele considerar merecedores, seguindo as regras a pedido do criador do selo:

1. Exibir a imagem do selo em seu blog.
2. Linkar o blog pelo qual recebeu a indicação.
3. Escolher outros quinze blogs a quem entregar o prêmio dardos.
4. Avisar os escolhidos.


 MEUS  PRESENTEADOS :

Beijos

Nidia

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Gostei... - Projeto Casa da Leitura

Clique na imagem para vê-la em tamanho maior

O Inatel Casa Viva está fazendo uma campanha de recolhimento de livros infantis, gibis e brinquedos para o projeto da Casa Viva chamado " Casa da Leitura " que deverá beneficiar outras crianças da comunidade Santa-ritense.
Os objetos para doação podem ser entregues na Casa Viva e no DA Inatel até o dia 11 de outubro.

sábado, 16 de junho de 2012

Gostei... - Carta para minha namorada


CARTA PARA MINHA NAMORADA

Eu decorei suas fraquezas, acalmei seus pesadelos.
Conheço histórias de sua infância, dores e repulsas.
Sou sua caixa-preta, sua cópia de segurança, seu diário, seu esconderijo na parede.
Poderia imitar sua caligrafia, poderia escrever sua biografia, listar o material escolar da 5ª série, recordá-la da capa de bichinhos coloridos da cartilha Alegria de Saber.
Você não escondeu nenhuma resposta de minhas perguntas. Nenhuma gaveta para a minha curiosidade.
Nunca se revelou tanto para outra pessoa. Expôs quem odiava no Ensino Médio, quem amava, quais as gafes e as covardias que experimentou na escola.
Confidenciou aquilo que seu pai gritou e que magoou fundo, aquilo que sua mãe omitiu e feriu fundo.
Não tem anticorpos contra mim. Baixou as armas, depôs a mínima resistência.
Se você me escolheu para confiar, devo ter o dobro de tato para falar contigo, o triplo de responsabilidade. Qualquer um conta com o direito de falhar, qualquer um desfruta da possibilidade de errar, menos eu. Sou o que realmente estudou seus pontos fracos e o lugar de suas veias.
Perdi a desculpa do acidente, a vantagem do lapso.
Sou o mais perigoso, portanto tenho a obrigação de defendê-la de mim. Tudo o que ouvi a seu respeito não posso empregar para agredi-la. Cada desabafo que me confiou não serve para nada, a não ser para amá-la.
Não tem finalidade doméstica, nem serventia para fofoca, é uma amnésia alegre: escuto, sorrio e consolo.
Não ouso soprar verdades sem sua permissão. São arquivos protegidos.
Quem ama mergulha em hipnose regressiva, firmamos um código de quietude e cumplicidade, de zelo e compromisso.
Intimidade é um conteúdo perigoso, tóxico, explosivo. Há os casais que esquecem que estão levando a valiosa carga e transformam a catarse em tortura psicológica, em chantagem emocional, em sequestro moral.
Suas confidências morrem comigo ou eu vou morrer nelas. Não podem retornar numa briga. Que eu morda a língua, queime a boca, mas não use jamais seus segredos. Aquilo que você me disse não é para ser devolvido. Todo segredo é um sino sem pêndulo.
Não importa o que faça ou as razões da raiva, é covardia distorcer suas lembranças.
Não posso rifar seus problemas, nem propor leilão dos seus medos.
Minha namorada, minha noiva, minha mulher, meu amor.
Eu prometo cercar seu silêncio com meu silêncio.
Não nasci para julgá-la, mas para me julgar e, assim, merecê-la.

(Fabrício Carpinejar - Publicado no jornal Zero Hora em 12/06/2012)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Gostei,,, - Poesia vira remédio para doentes graves

Poesia vira remédio para doentes graves 

No recém-lançado Linhas Pares (Scortecci Editora), a médica Ana Claudia Quintana Arantes virou apenas Claudia Quintana, a poeta. Formada pela Faculdade de Medicina da USP e pós-graduada em Intervenções em Luto pelo Instituto de Psicologia 4 Estações, Ana também é especializada em Cuidados Paliativos pela Universidade de Oxford. E foi exatamente na medicina paliativa que descobriu o caminho para solucionar alguns dilemas que encontrava na tradicional. 
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cuidados paliativos consistem em uma assistência para melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares diante de uma doença que ameace sua vida. Para a doutora, uma maneira de alcançar esse objetivo é por meio da poesia. “Acompanhei um paciente com câncer de pulmão que se queixava de fadiga. 
Não havia mais possibilidade de tratamento oncológico e ele se abriu para toda a sorte de tratamentos complementares. Fiz então uma proposta: quer provar poesia?”, relembra. O paciente voltou fascinado: “‘Ana, isso tudo fez todo o sentido. Não preciso buscar respostas em nenhum outro tempo que não seja agora. Minha vida tem sentido, e agora. Muito obrigado’”. 
Nos receituários que a médica-escritora prescreve aos seus pacientes no Hospice do Hospital das Clínicas e no Hospital Israelita Albert Einstein, estão poemas de Clarice Lispector, Manoel de Barros, Fernando Pessoa e seu favorito, Mário Quintana – que inspirou seu “nome artístico”. Também figuram Cecília Meireles (“ela me ajuda a trabalhar com a morte no dia a dia”, Ana diz) e Carlos Drummond de Andrade (“ele me faz sorrir sempre, mas algumas vezes choro antes, porque é preciso”).
Mesmo nunca tendo cursado nenhuma disciplina relacionada à literatura durante seu curso de Medicina na USP, nada impediu que essa “irremediável devoradora de livros” (como se auto intitula) escrevesse seus próprios versos. Primeiro no blog prescreverpoesia, que dois anos depois daria origem a Linhas Pares, que tem 51 poemas e 21 fotografias, tudo autoral. “A arte sempre esteve presente na minha medicina, pois entro na vida dos meus pacientes pela porta que todos querem manter fechadas para sempre: a do sofrimento, da doença e da morte. Preciso mostrar que posso ajudar a viver tudo isso de uma forma diferente, menos sofrida e repleta de sentido, e fazer isso é uma arte”. O segundo livro de poesias de Claudia já está pronto, e a previsão é que seja lançado ainda neste ano. 
(Fonte: Melissa Myeko - Jornal do Campus em 28/05/2012)

Blog: Se a poesia cura a alma acaba também curando o corpo.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Gostei... - A canção de qualquer mãe

A canção de qualquer mãe


Que nossa vida, meus filhos, tecida de encontros e desencontros, como a de todo mundo, tenha por baixo um rio de águas generosas, um entendimento acima das palavras e um afeto além dos gestos – algo que só pode nascer entre nós. Que quando eu me aproxime, meu filho, você não se encolha nem um milímetro com medo de voltar a ser menino, você que já é um homem. Que quando eu a olhe, minha filha, você não se sinta criticada ou avaliada, mas simplesmente adorada, como desde o primeiro instante. 
Que, quando se lembrarem de sua infância, não recordem os dias difíceis (vocês nem sabiam), o trabalho cansativo, a saúde não tão boa, o casamento numa pequena ou grande crise, os nervos à flor da pele – aqueles dias em que, até hoje arrependida, dei um tapa que ainda agora dói em mim, ou disse uma palavra injusta. Lembrem-se dos deliciosos momentos em família, das risadas, das histórias na hora de dormir, do bolo que embatumou, mas que vocês, pequenos, comeram dizendo que estava maravilhoso. Que pensando em sua adolescência não recordem minhas distrações, minhas imperfeições e impropriedades, mas as caminhadas pela praia, o sorvete na esquina, a lição de casa na mesa de jantar, a sensação de aconchego, sentados na sala cada um com sua ocupação. 
Que quando precisarem de mim, meus filhos, vocês nunca hesitem em chamar: mãe! Seja para prender um botão de camisa, ficar com uma criança, segurar a mão, tentar fazer baixar a febre, socorrer com qualquer tipo de recurso, ou apenas escutar alguma queixa ou preocupação. Não é preciso constrangerem-se de ser filhos querendo mãe, só porque vocês também já estão grisalhos, ou com filhos crescidos, com suas alegrias e dores, como eu tenho e tive as minhas. Que, independendo da hora e do lugar, a gente se sinta bem pensando no outro. Que essa consciência faça expandir-se a vida e o coração, na certeza de que aquela pessoa, seja onde for, vai saber entender; o que não entender vai absorver; e o que não absorver vai enfeitar e tornar bom. 
Que quando nos afastarmos isso seja sem dilaceramento, ainda que com passageira tristeza, porque todos devem seguir seu caminho, mesmo que isso signifique alguma distância: e que todo reencontro seja de grandes abraços e boas risadas. Esse é um tipo de amor que independe de presença e tempo. Que quando estivermos juntos vocês encarem com algum bom humor e muita naturalidade se houver raízes grisalhas no meu cabelo, se eu começar a repetir histórias, e se tantas vezes só de olhar para vocês meus olhos se encherem de lágrimas: serão apenas de alegria porque vocês estão aí. Que quando pareço mais cansada vocês não tenham receio de que eu precise de mais ajuda do que vocês podem me dar: provavelmente não precisarei de mais apoio do que do seu carinho, da sua atenção natural e jamais forçada. E, se precisar de mais que isso, não se culpem se por vezes for difícil, ou trabalhoso ou tedioso, se lhes causar susto ou dor: as coisas são assim. Que, se um dia eu começar a me confundir, esse eventual efeito de um longo tempo de vida não os assuste: tentem entrar no meu novo mundo, sem drama nem culpa, mesmo quando se impacientarem. Toda a transformação do nascimento à morte é um dom da natureza, e uma forma de crescimento. 
Que em qualquer momento, meus filhos, sendo eu qualquer mãe, de qualquer raça, credo, idade ou instrução, vocês possam perceber em mim, ainda que numa cintilação breve, a inapagável sensação de quando vocês foram colocados pela primeira vez nos meus braços: misto de susto, plenitude e ternura, maior e mais importante do que todas as glórias da arte e da ciência, mais sério do que as tentativas dos filósofos de explicar os enigmas da existência. A sensação que vinha do seu cheiro, da sua pele, de seu rostinho, e da consciência de que ali havia, a partir de mim e desse amor, uma nova pessoa, com seu destino e sua vida, nesta bela e complicada terra. E assim sendo, meus filhos, vocês terão sempre me dado muito mais do que esperei ou mereci ou imaginei ter. 
(Lya Luft – publicado na Revista Veja em 12/05/2010)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Gostei... - O GPS da vida

O GPS da vida 

Não tenho o menor senso de direção. Faço parte daquele grupo de pessoas para as quais o deslocamento de um lugar a outro é sempre um desafio. O Norte parece sempre mudar de lugar. Estar pedido é não somente habitual, mas também um fato inevitável da vida. 
Talvez por isso, adoro o GPS do meu carro. Aquela voz feminina me explicando cada caminho e avisando a cada curva com precisão milimétrica me traz a segurança que eu chegarei a meu destino como planejado. Esta segurança provavelmente é ilusória. Sei que GPSs não são perfeitos. 
Outro dia, vi no jornal a fotografia de quatro carros submersos parcialmente em um rio. Foi na Inglaterra. Os motoristas dos carros haviam conduzido seus veículos para dentro d água porque o GPS havia indicado que o rio, e não a estrada, era o caminho correto. 
Sempre me perguntei como foi possível a esses motoristas seguirem as instruções do GPS apesar de elas estarem claramente erradas. Parece que eles deixaram de ouvir a sua voz interna e ignoraram as informações que o cérebro mandava baseado naquilo que os olhos viam. 
Acho que todos nós temos esta voz que insiste em distinguir o que é certo do que é errado. Às vezes, estas vozes falam tão alto que a gente sente fisicamente sua presença. É aquela sensação de que tem algo fora de lugar. É aquilo que chamamos de consciência. A ética é a manifestação física desta voz interna.
Ética, como disse o Jurista inglês John Moulton, é obedecer ao que não tem punição prevista em lei. 
O comportamento ético vem como resultado dos diálogos internos em que a consciência compara os fatos, as ações possíveis com os valores e decide (ou melhor, recomenda), o que é certo e o que é errado. Quase sempre, o comportamento antiético acontece quando as ações não seguem a consciência. 
Decidir o certo do errado não é tarefa simples. A vida é cheia de curvas, dilemas, circunstâncias, pressões e situações. O certo não necessariamente é o obvio. O errado pode não estar evidente. Tudo isso gera ruído externo que interfere com a capacidade de ouvir a consciência. Optar pelo certo pode ter um custo ou mesmo não ter recompensa imediata aparente. 
Viver é complicado, mas ignorar a voz interna é um erro. É a consciência individual a juíza das ações de cada ser humano. A ela pertence a avaliação que norteia as ações. É ela a companheira inseparável de cada um. Dela não se pode fugir. Dela não se pode esconder. Contrariá-la é condenar-se a ouvir, eternamente, os gritos de uma voz interna que não pode ser calada.

Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca. Escreve aqui às segundas-feiras.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Gostei... - O lobo e o cordeiro: versões

O lobo e o cordeiro: versões

Dizem que a primeira versão desta fábula é de Demétrios de Phalerum e que Esopo (Grécia), Fedro (Roma), La Fontaine (França) e até Monteiro Lobato (Brasil) apenas a reescreveram. Se abrirmos os jornais essa fábula continua atual. Narro a versão divulgada por La Fontaine e dou minha feroz e mansa contribuição a esse fabulário.

Versão clássica

Dizem que um cordeiro pôs-se a beber num regato de águas limpas. Apareceu por ali um lobo, que parecia estar faminto e, em vez de beber água, foi logo dizendo ao cordeiro:
– Como ousas te meter nessa água que é minha? Vou te castigar por isso.
O cordeiro, respeitosamente chamando o outro de vossa majestade, pediu que o lobo não se irritasse, pois, afinal, o lobo é que estava na parte de cima do riacho, o cordeiro, mais abaixo, e não poderia turvar a água.
O lobo ficou ainda mais furioso e alegou que, além do mais, o cordeiro andava falando mal dele há um ano.
– Como? disse o cordeiro surpreso, se há um ano eu nem havia nascido.
– Ah, então foi seu irmão.
– Mas eu não tenho irmão…
– Então foi algum dos seus, o pastor, os cães e, de qualquer forma, eu vou me vingar.
E assim dizendo, deu um bote no cordeiro, carregou-o para o fundo da floresta e o devorou.

Segunda versão

Um cordeiro estava bebendo água, porém na parte alta de num riacho, quando, de repente , mais abaixo, apareceu um lobo, que começou também a beber da mesma água.
O lobo virou-se para o cordeiro e disse:
– Você está emporcalhando a água que estou bebendo.
– Mas eu cheguei aqui primeiro, disse o cordeiro, você é que se meteu aí embaixo.
– Vocês cordeiros não aprendem nunca. Já tive que comer seu pai e sua mãe por causa disso, no ano passado.
– Por que você não bebe a sua água e me deixa beber a minha em paz?, disse o cordeiro.
– É, vocês cordeiros não leem as fábulas antigas, não estudam história.
E assim dizendo, deu um bote, arrastou o cordeiro para o fundo da floresta e o devorou. (Affonso Romano de Sant´Anna)

Terceira versão

Um lobo chegou à beira de um riacho, instalou-se na parte de cima e começou a beber água, pois estava meio cansado.
Mal começou a beber, notou que outro lobo se aproximava, instalando-se na parte de baixo do riacho, onde começou a beber água.
Iam bebendo, cada um do seu jeito. A água corria, matava-lhes a sede e era abundante.
Mas o lobo que estava abaixo começou a achar que o lobo que estava acima estava sujando sua água.
Incomodado, o lobo olhou o outro:
– Você bem que podia ir beber longe daqui, meu velho, porque esse riacho é meu.
– Sem essa, “ brother,” vê como fala, porque não sou nenhum cordeiro.
E a conversa foi ficando tensa, cada vez mais agressiva, até que os dois se atacaram e se estraçalharam mortalmente. (Affonso Romano de Sant´Anna)

Quarta versão

Um cordeiro chegou à beira de um riacho, instalou-se na parte de baixo começou a beber água.
Estava ali tranquilo quando, na parte de cima do mesmo riacho, surgiu um outro cordeiro que começou a beber da mesma água.
Não se sabe quem começou a implicar com quem. Ambos se achavam com direito à água. Não teve jeito, atracaram-se e se feriram mortalmente.
E ambos eram cordeiros. (Affonso Romano de Sant´Anna)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Fragmentos - "Arroz de Palma"

“Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema - principalmente no Natal e no Ano-Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Ás vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida - azeitona verde no palito - sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano - quem diria? - solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este, o mais gordo e generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.
E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero ou do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e a cebola. Não se envergonhe se chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, essas especiarias - que quase sempre vêm da África e do oriente e nos parecem estranhas ao paladar - tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe "Família à Oswaldo Aranha", "Família à Rossini", "Família à Belle Meunière" ou "Família ao Molho Pardo" - em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é "À Moda da Casa". E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras, apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada - seriam assim um tipo de "Família Diet", que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Há famílias, por exemplo, que levam muito tempo para serem preparadas. Fica aquela receita cheia de recomendações de se fazer assim ou assado - uma chatice! Outras, ao contrário, se fazem de repente, de uma hora para outra, por atração física incontrolável - quase sempre de noite. Você acorda de manhã, feliz da vida, e quando vai ver já está com a família feita. Por isso é bom saber a hora certa de abaixar o fogo. Já vi famílias inteiras abortadas por causa de fogo alto.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia-a-dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente, na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.”
(Francisco Azevedo , em "Arroz de Palma ")

quinta-feira, 15 de março de 2012

Gostei... - A pança do Chico

A pança do Chico
Levei a mulher para ver o Chico cantando fora daquele CD que ela tanto escuta. Sim, levei, não assumo que fui também porque dele nem gosto de criar apego. Gosto é da Geni, da Rita, da Teresinha, da Beatriz, da Iolanda...
Quando o homem surgiu no palco, puxei um ensaio de ciúme do peito enquanto minha deusa entrava em uma espécie de transe de adoração pelo sujeito.
Tive de me conter para encarar aquele "olhos nos olhos" que ela tanto esperava como apenas uma coisa de fã e só isso mesmo.
Mas a minha vez de êxtase também chegaria -e logo nos primeiros momentos do show. Era verdade: o galã, que encanta ao cantar as agruras e doçuras do amor, exibia uma pança igualzinha à dos mortais maridos, namorados, amantes, casos, amásios, ficantes.
Se Chico Buarque, que é viciado em pelada aos finais de semana, que pode flanar pelas ruas de Paris ou caminhar pela orla carioca em uma tarde qualquer de segunda-feira, tem uma bela de uma barriga (nem venha chamar aquilo de protuberância do charme), um cadeirante como eu ter uma pança é praticamente regra do jogo.
Afinal, mal posso tocar o meu veículo por alguns metros de rua para "malhar" que lá vem alguém dizer: "Deixa que eu te empurro! Não se afobe, não, que nada é para já".
E onde estão as academias com pleno acesso em seus equipamentos e estrutura para eu fazer uns abdominais, para desabafar com as calorias e com o colesterol alto que, "apesar de você, amanhã há de ser outro dia"? Deve haver uma ou duas... no planeta.
Calçadão perfeitinho para "rodar" tranquilamente e perder uns quilos? Só pegando na mão de "nossa senhora da bicicletinha" para me dar equilíbrio e não me esborrachar no chão com tanta buraqueira. Resultado: pança.
Juntem-se a mim os sedentários por opção, os entrevados sem opção, os que ganharam barriga de herança genética, os tiozões rechonchudos convictos, os não adesistas à lipoaspiração.
Pronto: formou-se um exército napoleônico de barrigudos, não necessariamente de íris cor do topázio, que ganham um novo fôlego, com Chico, para enfrentar a ditadura dos abdomes capazes de servir de suporte para bater roupa.
Logo, enquanto a mulher vibrava com seu ídolo que cantara uma de suas favoritas, "Todo Sentimento", eu me deliciava pensando que o querubim safado de "Até o Fim" era mesmo imperdoável e tinha virado sua flecha era para o próprio compositor que, até então, para mim, era "um gato" cujo mundo era detefon, almofada e trato.
Depois de quase duas horas de adoração, de gritos, de suspiros, de palmas e de contemplação a Chico (e à sua pança), a banda sai de cena levando consigo o homem da "construção" mais polêmica da música brasileira. Mas a plateia, por sua vez, se mantinha mais agitada que gemada de um ovo só.
"Será que ele volta, amor? O Chico é tão lindo", disse a mulher. Eu, completamente satisfeito, inclusive com a autoestima nas alturas, pensei: "Não é por estar na sua presença, meu prezado rapaz, mas você vai mal. Mas vai mal demais. São seis horas o samba tá quente. Deixe a morena com a gente. Deixe a menina sambar em paz".
(Fonte: Jairo Marques – Folha de São Paulo em 13/03/2012)

terça-feira, 13 de março de 2012

Gostei... - Vamos queimar os dicionários

Em 29 de Outubro de 2011, neste blog, mostrei minha indignação com o Conselho Nacional de Educação que sugeria que o livro “Caçadas de Pedrinho” não fosse mais distribuído para as escolas públicas sob a alegação de que a obra era racista.
Agora, em 27 de Fevereiro de 2012, o Ministério Público Federal entrou com ação para tirar o dicionário Houaiss de circulação por julgar que o mesmo contém expressões “preconceituosas” relativas aos ciganos configurando assim uma atitude racista. A ação pede, além da supressão dos termos, o pagamento de R$ 200 mil de indenização por dano moral coletivo.
Segundo textos da Internet, o Houaiss não tem mais “cigano” na sua versão eletrônica. Não pude verificar a veracidade da notícia, pois não sou assinante do UOL, mas parece que se for digitada a palavra “cigano” aparecerá informação “palavra não foi encontrada”.
Está tudo virando um absurdo sob a égide do “politicamente correto”.
Ainda bem que temos pessoas sensatas o bastante para escrever texto como o abaixo:

Vamos queimar os dicionários

Quando a gente pensa que já viu tudo, não viu. Faz algum tempo, dentro do horroroso politicamente correto que me parece tão incorreto, resolveram castrar, limpar, arrumar livros de Monteiro Lobato, acusando-o de preconceito racial, pois criou entre outras a deliciosa personagem da cozinheira Tia Nastácia, que, junto com Emília e outros do Sítio do Pica-Pau Amarelo, encheu de alegria minha infância. Se formos atrás disso, boa parte da literatura mundial deve ser deletada ou "arrumada". Primeiro, vamos deletar a palavra "negro" quando se refere a raça e pessoas, embora tenhamos uma banda Raça Negra, grupos de teatro Negro e incontáveis oficinas, açougues, borracharias "do Negrão", como "do Alemão" "do Portuga" ou "do Turco". Vamos deletar as palavras. Quem sabe, vamos ficar mudos, porque ao mal-humorado essencial, e de alma pequena, qualquer uma pode ser motivo de escândalo. Depende da disposição com que acordou, ou do lado de onde sopram os ventos do seu próprio preconceito.
Embora meus •antepassados tivessem vindo ao Brasil em 1825, portanto sendo eu de muitas gerações de brasileiros tão brasileiros quanto os de todas as demais origens, na escola havia também a turminha que nos achacava com refrãos como "Alemão batata come queijo com barata". Nem por isso nos odiamos, nos desprezamos. Eram coisas infantis, sem consistência. O que vemos hoje quer mudar a cara do país, ou da cultura do país, e não tem nada de inocente.
Um dos negros que mais estimei (no passado, porque morreu), ligado a mim por laços de família, era culto, bom, interessante, nossos encontros eram uma alegria. Com ele muito aprendi, sua cultura era vasta. A cor de sua pele nunca me incomodou, como, imagino, não o aborreciam meus olhos azuis. Havia coisas bem mais positivas e importantes entre nós e nossas famílias. Não vou desfilar casos com amigos negros, japoneses, árabes, judeus, seja o que for. Mas vou insistir no meu escândalo e repúdio a qualquer movimento que seja discriminatório, que incite o ódio de classes ou o ódio racial, não importa em que terreno for.
Agora, de novo para meu incorrigível assombro, em um lugar deste vasto, belo, contraditório país que a gente tanto ama, desejam sustar a circulação do Dicionário Houaiss, porque no verbete "cigano" consta também o uso pejorativo - que, diga-se de passagem, não foi inventado por Houaiss, mas era ou é uso de alguns falantes brasileiros, que o autor meramente, como de sua obrigação, registrou. Ora, para tentar um empreendimento desse vulto, como suspender um dicionário de tal peso e envergadura, seria preciso um profundo e preciso conhecimento de linguística, de lexicografia, uma formação sólida sobre o que são dicionários e como são feitos.
O dicionarista não inventa, não acusa nem elogia, deve ser imparcial - porque é apenas alguém que registra os fatos da língua, normalmente da língua-padrão, embora haja dicionários de dialetos, de gírias, de termos técnicos etc. Então, se no verbete "cigano" Houaiss colocou também os modos pejorativos como a palavra é ou foi empregada, criticá-lo por isso é uma tolice sem tamanho, que, se não cuidarmos, atingirá outros termos em outros dicionários, com esse olhar rancoroso. Vamos nos informar, antes de falar. Vamos estudar, antes de criticar. Vamos ver em que terreno estamos pisando, antes de atacar obras literárias ou científicas com o azedume de nossos preconceitos e da nossa pequenez ou implicâncias infundadas. Há coisas muito mais importantes a fazer neste país, como estimular o cuidado com a educação, melhorar o atendimento à saúde, promover e preservar a dignidade de todos nós.
Ou, numa mistura maligna de arrogância e ignorância - talvez simplesmente porque não temos nada melhor a fazer -, vamos deletar as palavras que nos incomodam, os costumes que nos irritam, as pessoas que nos atrapalham e, quem sabe, iniciar uma campanha de queima de livros. De autores, seria um segundo passo. E assim caminhará para trás, velozmente, o que temos de humanidade.
(Lya Luft – Revista Veja em 10/03/2012)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Gostei... - Maria Helena Brusamolin

A partir de hoje, teremos a colaboração da Maria Helena Brusamolin também conhecida como MARDI. Professora "nota 10" de Língua Portuguesa, pessoa "do bem" e de bem com a vida, que sabe compartilhar seu saber com todos. Certamente será uma contribuição de grande valia para todos nós.
Obrigada Maria Helena por me ajudar nessa brincadeira cuja função maior é alegrar as pessoas que passam por aqui.

domingo, 29 de janeiro de 2012

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Gostei... - Naufragar é preciso?

Naufragar é preciso?

Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural
Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse? Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?
A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extraterrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.
Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil. Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros. Questão de educação.
Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.
A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos.
Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.
A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua. Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?
Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.
Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.
Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo” etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.
Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.
Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.
A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.
Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.
Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.
Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.
De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?
(Fonte: João Pereira Coutinho – Tribuna da Bahia em 16/01/2012)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Gostei... - Meryl Streep vai viver Clarice Lispector no cinema

Meryl Streep vai viver Clarice Lispector no cinema, diz jornal

A atriz foi convidada pelo diretor americano Benjamin Moser e já teria aceitado o papel.
Meryl Streep vai interpretar a poeta brasileira Clarice Lispector no cinema, segundo a coluna Gente Boa, do jornal "O Globo".
A atriz teria sido convidada pelo diretor americano Benjamin Moser, autor de "Clarice", uma das biografias da escritora, e já teria aceitado a proposta. Meryl também teria se declarado fã de Lispector.
(Fonte: http://ego.globo.com)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Gostei... - Embriaga-te

Embriaga-te
Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te!
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: "São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto."
(Charles Baudelaire - Tradução Antônio Pinheiro Guimarães)
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